uma lição de branding na "sala mais aborrecida de sempre”

a marca Lego é provavelmente detentora do maior numero de referências neste blog. E nem preciso de explicar porquê ;)

neste caso, volta a aparecer para poder destacar uma iniciativa (uma "experiência social") da fundação da marca - The Lego Foundation

sou psicólogo clínico de formação de base e, por isso, esta ação torna-se particularmente irresistível, por juntar o melhor dos dois mundos, a psicologia e o marketing

de que é que se trata: colocaram seis crianças numa sala vazia com apenas uma mesa, uma cadeira e um único rolo de papel. Objetivo? ver o que acontecia!



 

e obviamente aquela que era aparentemente a “sala mais aborrecida de sempre” torna-se tudo menos isso! torna-se um espaço para dar corpo à imaginação, ao jogo, à construção de "realidades alternativas", à diversão, ...  vale a pena ver o vídeo:
 

produzida pela Ketchum London e realizada pela Mad Cow Films como parte da campanha “Build a world of play” da Lego Foundation, os resultados deste “experiência social” foram filmados e projetados para destacar esta capacidade das crianças de utilizarem a imaginação e o jogo (que é precisamente o território da  marca Lego)

da minha experiência de mais de 20 anos em consulta psicológica de crianças e adolescentes desde muito cedo percebi o que nunca podia faltar neste contexto: lápis e folhas de papel brancas. Gostei ver a Lego dar visibilidade a este super-poder das crianças e que infelizmente parece que perdemos com a idade...

a Lego a trabalhar os benefícios sociais e emocionais da marca, contribuindo ativamente para a valorização do papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Esta ação mostra que a Lego conhece genuinamente bem o seu consumidor e torna evidente porque é que "blocos de plástico" fazem sentido na vida das crianças e dos pais (o que no Marketing chamamos de "propósito")

gosto!

o que é que o álcool gel e os cocktails molotov têm em comum?

ambos são (boas) respostas - neste caso de marcas de cerveja - aos desafios do momento

durante a pandemia, e de forma a apoiar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) no abastecimento de produtos essenciais, o Super Bock Group e a Destilaria Levira estabeleceram uma parceria inédita para a produção de álcool gel desinfetante para as mãos que foi oferecido a unidades hospitalares da região do Porto

transformaram 56 mil litros de álcool da produção de cerveja sem álcool do grupo de bebidas em cerca de 14 mil litros de álcool gel

as necessidades mudam, as marcas acompanham 

durante o desenrolar da invasão russa, a Pravda, localizada na cidade de Lyiv, na Ucrânia, acrescentou à sua linha industrial de cerveja a produção de cocktails molotov, convertendo parte das suas instalações de engarrafamento numa fábrica de cocktails molotov 


 

a mensagem no rótulo diz tudo: "Putin Huilo", que se traduz num insulto ao presidente russo. Estes cocktails molotov têm como destino as milícias de autodefesa ucranianas, relatou Juri Zastavniy, gerente do Pravda, ao Telegraph 

a reportagem da reuters:

o posicionamento é também sobre marcar uma posição! e por isso o (bom) marketing ser tanto uma questão de coragem! tenho cada vez mais a certeza disso.

marcas e a procura da "verdade" conveniente

diz-se que assumir que se tem um problema é o primeiro passo para o ultrapassar... foi precisamente isso que a marca de chocolates Tonny's (que diz que não é uma marca de chocolates) decidiu fazer:

"We're an Impact Company that makes chocolate, not the other way around. And while we're crazy about chocolate, we're serious about people. In that spirit, we've decided to confront the big chocolate-covered elephant in the room: Our inconvenient truth? We're part of the sugar problem."

esta é a mensagem principal que encontramos na secção do website dedicada a esta comunicação:


 


parece ser a lógica do "beba com moderação" ;) mas vai bem mais longe, e incorpora algumas das boas práticas da ultima ação da DOVE: #SemManipulaçãoDigital (que podem consultar aqui)

nesse sentido, faz parte desta iniciativa um report de 69 páginas: "Understanding the effects of sugar overconsumption and possible interventions" que podem consultar aqui. Gostava de reforçar o "reason why" da marca para esta iniciativa, porque diz tudo:
 
"That’s why we’ve spent serious time understanding the problem of sugar overconsumption. And what possible solutions are out there to prevent overconsumption. This process helped us define what we believe the right solutions could be and establish our role in these."
 
esta posição é tão explicita e marcadamente assumida que não deixa margem para erro, este infográfico da marca é tão bem conseguido que quase se torna contra-producente ;)


 
a falta de literacia financeira foi sem dúvida parte do problema da crise financeira de 2009, a (falta de) literacia alimentar e nutricional será claramente parte do problema de obesidade que enfrentamos, por exemplo

o nosso Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) dá particular ênfase a este tema, pode ler-se no próprio website, dentro da "Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional":

"o aumento da literacia alimentar e nutricional e a capacitação dos cidadãos de diferentes estratos socioeconómicos e etários (...) para as escolhas e práticas alimentares saudáveis e o incentivo de boas práticas sobre a rotulagem, publicidade e marketing a produtos alimentares."
 
por isso, gostei da iniciativa ;) é mais um passo que vale a pena ser dado. Marcas irreverentes fazem-nos de forma irreverente, mas todas as formas de o fazer são válidas. Como refere Niclas Norström no LinkedIn (aqui), a quem fui buscar inspiração para este texto,
 
"How many other companies talking about ”purpose” and being ”people-centered” dare to act in this way and be transparent about their inconvenient truths and negative impact on people, society and planet."  
 
mais importante ainda:
 
"Try this excercise to kick of 2022 in a bold and provocative way! What if - we did like Tony and were transparent about our inconvenient truths - what would we do/change and how would we communicate about it?"
 
tal como o dinheiro gera dinheiro, acredito que o conhecimento gera conhecimento! as marcas têm um papel importante na divulgação e comunicação dos impactos dos seus produtos na vida das pessoas e do planeta, tal como os consumidores devem ter bem presentes quais são os impactos do seu consumo na sua vida e na vida do planeta, isto é uma moeda de duas faces, onde marcas e consumidores têm um papel determinante! 
 
por isso nas palavras da Tonny's: "Let’s make 2022 the year of conscious choco chomping!"

não posso deixar de terminar sem esta nota: em 2012, faz agora 10 anos, a "American Apperel" lançou uma comunicação tão arrojada e irreverente quanto interessante: "f**k the brands that are f**king the people" (podem ver aqui), para mim, claramente "antes do seu tempo" mas já a deixar as sementes para o chamado "capitalismo conscencioso" (vale mesmo a pena saber mais, sugiro começar por aqui)
 
vamos a isso!

as marcas do Bullying

"as marcas do Bullying" é o tema de capa da edição de Outubro de 2021 da revista Marketeer, uma iniciativa excelente e muito bem executada, com uma direção de arte exemplar 

toda a visibilidade ao tema é bem vinda, parabéns Marketeer


em Portugal o tema ainda é tratado como “tabu”, mas já existem campanhas pontuais e trabalhos muito interessantes. Internacionalmente, as campanhas sobre este tema multiplicam-se e são cada vez mais e melhores; tenho escrito sobre algumas delas neste blog (por exemplo aqui)

mas quanto mais acompanho estas iniciativas, mais me questiono sobre o seguinte: 

em primeiro, sobre a enorme distância que por vezes existe entre todas estas ações e a violência no dia-a-dia destas crianças e adolescentes; temos de garantir que efectivamente chegamos onde importa, temos de começar a medir resultados e temos de ser mais eficazes na promoção de mudança por forma a conseguirmos um verdadeiro impacto social

em segundo, e relacionado com o anterior, sobre quem é afinal o target das campanhas anti-bullying? as vitimas? os agressores? os cuidadores (das vitimas e dos agressores)? todos? porque tenho a ligeira sensação que quem "vê e ouve" estas campanhas são muitas vezes quem menos precisa...

em terceiro, sobre a comunicação paradoxal com que invadimos a (sub)consciência das crianças e adolescentes: por um lado injectamos nos meios de comunicação social doses massivas de violência, onde todos os dias é glorificada, nomeadamente pelos algoritmos das redes sociais, por outro lado fazemos campanhas mais ou menos "fofinhas" a dizer que a violência é uma coisa "feia e má". Em que ficamos? qual é mesmo a nossa posição?
 
deixo para reflexão, os comentários são bem vindos

papel do marketing na promoção do comportamento pró-social

para o Dia Mundial da Síndrome de Down 2021, a CoorDown apresentou a The Hiring Chain, a campanha de comunicação internacional desenvolvida em parceria com a agência de criação Small, com sede em Nova York 

a mensagem da ação é simples e eficaz: contratar uma pessoa com síndrome de Down não só muda a vida da pessoa em questão, como pode desencadear um círculo virtuoso de novas oportunidades para todos! Como explica a CoorDown no seu canal de YouTube:"quanto mais as pessoas com síndrome de Down forem vistas no trabalho, mais serão reconhecidas como colaboradores valiosos e mais serão contratadas"

a canção original da campanha é interpretada por Sting e foi composta por Stabbiolo Music. É este o "pequeno grande" detalhe que lança para a fama esta ação


 

o tweet do Sting:

o vídeo e a música: 

os empregadores inspirados no filme podem visitar o sítio criado para o efeito em www.hiringchain.org (criado por Adoratorio Studio) onde vão encontrar os contactos de organizações de todo o mundo que podem ajudar e fornecer informações detalhadas sobre a criação de um local de trabalho inclusivo

quem quiser conhecer a identidade visual de todo o projecto, pode encontrar aqui

o sucesso desta ação está obviamente no insight, que é brilhante. O Sting dá-lhe a notoriedade que ele merece, garantindo assim o sucesso e a maior visibilidade

fica evidente como o marketing pode e deve atuar no sentido da promoção do comportamento pró-social, seja dos empregadores, seja dos consumidores. Este é um passo na direção do futuro, o marketing ao serviço do verdadeiro impacto social