marcas e a procura da "verdade" conveniente

diz-se que assumir que se tem um problema é o primeiro passo para o ultrapassar... foi precisamente isso que a marca de chocolates Tonny's (que diz que não é uma marca de chocolates) decidiu fazer:

"We're an Impact Company that makes chocolate, not the other way around. And while we're crazy about chocolate, we're serious about people. In that spirit, we've decided to confront the big chocolate-covered elephant in the room: Our inconvenient truth? We're part of the sugar problem."

esta é a mensagem principal que encontramos na secção do website dedicada a esta comunicação:


 


parece ser a lógica do "beba com moderação" ;) mas vai bem mais longe, e incorpora algumas das boas práticas da ultima ação da DOVE: #SemManipulaçãoDigital (que podem consultar aqui)

nesse sentido, faz parte desta iniciativa um report de 69 páginas: "Understanding the effects of sugar overconsumption and possible interventions" que podem consultar aqui. Gostava de reforçar o "reason why" da marca para esta iniciativa, porque diz tudo:
 
"That’s why we’ve spent serious time understanding the problem of sugar overconsumption. And what possible solutions are out there to prevent overconsumption. This process helped us define what we believe the right solutions could be and establish our role in these."
 
esta posição é tão explicita e marcadamente assumida que não deixa margem para erro, este infográfico da marca é tão bem conseguido que quase se torna contra-producente ;)


 
a falta de literacia financeira foi sem dúvida parte do problema da crise financeira de 2009, a (falta de) literacia alimentar e nutricional será claramente parte do problema de obesidade que enfrentamos, por exemplo

o nosso Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) dá particular ênfase a este tema, pode ler-se no próprio website, dentro da "Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional":

"o aumento da literacia alimentar e nutricional e a capacitação dos cidadãos de diferentes estratos socioeconómicos e etários (...) para as escolhas e práticas alimentares saudáveis e o incentivo de boas práticas sobre a rotulagem, publicidade e marketing a produtos alimentares."
 
por isso, gostei da iniciativa ;) é mais um passo que vale a pena ser dado. Marcas irreverentes fazem-nos de forma irreverente, mas todas as formas de o fazer são válidas. Como refere Niclas Norström no LinkedIn (aqui), a quem fui buscar inspiração para este texto,
 
"How many other companies talking about ”purpose” and being ”people-centered” dare to act in this way and be transparent about their inconvenient truths and negative impact on people, society and planet."  
 
mais importante ainda:
 
"Try this excercise to kick of 2022 in a bold and provocative way! What if - we did like Tony and were transparent about our inconvenient truths - what would we do/change and how would we communicate about it?"
 
tal como o dinheiro gera dinheiro, acredito que o conhecimento gera conhecimento! as marcas têm um papel importante na divulgação e comunicação dos impactos dos seus produtos na vida das pessoas e do planeta, tal como os consumidores devem ter bem presentes quais são os impactos do seu consumo na sua vida e na vida do planeta, isto é uma moeda de duas faces, onde marcas e consumidores têm um papel determinante! 
 
por isso nas palavras da Tonny's: "Let’s make 2022 the year of conscious choco chomping!"

não posso deixar de terminar sem esta nota: em 2012, faz agora 10 anos, a "American Apperel" lançou uma comunicação tão arrojada e irreverente quanto interessante: "f**k the brands that are f**king the people" (podem ver aqui), para mim, claramente "antes do seu tempo" mas já a deixar as sementes para o chamado "capitalismo conscencioso" (vale mesmo a pena saber mais, sugiro começar por aqui)
 
vamos a isso!

as marcas do Bullying

"as marcas do Bullying" é o tema de capa da edição de Outubro de 2021 da revista Marketeer, uma iniciativa excelente e muito bem executada, com uma direção de arte exemplar 

toda a visibilidade ao tema é bem vinda, parabéns Marketeer


em Portugal o tema ainda é tratado como “tabu”, mas já existem campanhas pontuais e trabalhos muito interessantes. Internacionalmente, as campanhas sobre este tema multiplicam-se e são cada vez mais e melhores; tenho escrito sobre algumas delas neste blog (por exemplo aqui)

mas quanto mais acompanho estas iniciativas, mais me questiono sobre o seguinte: 

em primeiro, sobre a enorme distância que por vezes existe entre todas estas ações e a violência no dia-a-dia destas crianças e adolescentes; temos de garantir que efectivamente chegamos onde importa, temos de começar a medir resultados e temos de ser mais eficazes na promoção de mudança por forma a conseguirmos um verdadeiro impacto social

em segundo, e relacionado com o anterior, sobre quem é afinal o target das campanhas anti-bullying? as vitimas? os agressores? os cuidadores (das vitimas e dos agressores)? todos? porque tenho a ligeira sensação que quem "vê e ouve" estas campanhas são muitas vezes quem menos precisa...

em terceiro, sobre a comunicação paradoxal com que invadimos a (sub)consciência das crianças e adolescentes: por um lado injectamos nos meios de comunicação social doses massivas de violência, onde todos os dias é glorificada, nomeadamente pelos algoritmos das redes sociais, por outro lado fazemos campanhas mais ou menos "fofinhas" a dizer que a violência é uma coisa "feia e má". Em que ficamos? qual é mesmo a nossa posição?
 
deixo para reflexão, os comentários são bem vindos

papel do marketing na promoção do comportamento pró-social

para o Dia Mundial da Síndrome de Down 2021, a CoorDown apresentou a The Hiring Chain, a campanha de comunicação internacional desenvolvida em parceria com a agência de criação Small, com sede em Nova York 

a mensagem da ação é simples e eficaz: contratar uma pessoa com síndrome de Down não só muda a vida da pessoa em questão, como pode desencadear um círculo virtuoso de novas oportunidades para todos! Como explica a CoorDown no seu canal de YouTube:"quanto mais as pessoas com síndrome de Down forem vistas no trabalho, mais serão reconhecidas como colaboradores valiosos e mais serão contratadas"

a canção original da campanha é interpretada por Sting e foi composta por Stabbiolo Music. É este o "pequeno grande" detalhe que lança para a fama esta ação


 

o tweet do Sting:

o vídeo e a música: 

os empregadores inspirados no filme podem visitar o sítio criado para o efeito em www.hiringchain.org (criado por Adoratorio Studio) onde vão encontrar os contactos de organizações de todo o mundo que podem ajudar e fornecer informações detalhadas sobre a criação de um local de trabalho inclusivo

quem quiser conhecer a identidade visual de todo o projecto, pode encontrar aqui

o sucesso desta ação está obviamente no insight, que é brilhante. O Sting dá-lhe a notoriedade que ele merece, garantindo assim o sucesso e a maior visibilidade

fica evidente como o marketing pode e deve atuar no sentido da promoção do comportamento pró-social, seja dos empregadores, seja dos consumidores. Este é um passo na direção do futuro, o marketing ao serviço do verdadeiro impacto social

o futuro do retalho moderno

"compre diretamente a quem fabrica" é o claim que acompanha o packshot final do vídeo que faz parte da mais recente campanha da Dyson, atualmente em TV e digital


 

será  este o principio do fim do retalho moderno como o conhecemos (baby steps)? com a ajuda essencial da massificação do D2C através do e-Commerce?

ou apenas um claim aspiracional de marca líder (que curiosamente está à venda na  distribuição moderna) cuja intenção é reforçar o posicionamento de especialista?

comentários (construtivos) são bem vindos ;)

75% das marcas poderiam desaparecer e ninguém se importaria!

este é o principal resultado do estudo Global Meaningful Brands® de 2021 da Havas
 
no seu 12º ano, o estudo de referência da Havas sobre a relevância das marcas, que envolveu mais de 395 mil pessoas em todo o mundo, revela um ceticismo cada vez mais acentuado, e uma discrepância crescente entre a expectativa dos consumidores face à atuação das marcas e empresas, e a avaliação que fazem desta


75% das marcas poderiam desaparecer e ninguém se importaria! 
 
desde que o estudo global com edição bianual teve início em 2009, a relevância das marcas tem diminuído gradualmente. O estudo de 2021, que mede a "relevância" das marcas em termos funcionais, pessoais e coletivo, mostra que 75% das marcas poderiam desaparecer e que a maioria das pessoas não se importaria ou encontraria facilmente uma alternativa, revelando um aumento de dois pontos percentuais nos últimos dois anos

o estudo de 2021, com recolha em meados de 2020, durante o auge da pandemia, também demonstra uma crescente falta de confiança nas marcas, com 71% dos entrevistados a afirmar que têm poucas expetativas sobre o cumprimento das promessas feitas pelas marcas. Os resultados revelam ainda que apenas 34% dos consumidores considera que as empresas são transparentes nos seus compromissos e promessas

repito: 75% das marcas poderiam desaparecer e ninguém se importaria!

quando falo deste número, a primeira reação é sempre de ceticismo, "não pode ser verdade"! ou "não pode ser tão alto"!! o ceticismo é desde logo uma reação defensiva... porque, a ser verdade, andamos (marketeers, publicitários, ...) efetivamente muito "distraídos" (para não dizer pior...)

mas é facil chegar a este número com um exercício simples:
  1. Lista todas as marcas que fazem parte da tua vida, de memória, e sem grande esforço (durante 1 minuto no máximo...);
  2. Dessa lista, sublinha as que têm alguma forma de impacto na tua vida, que estão presentes no teu dia a dia, e sem as quais nada seria o mesmo;
  3. Agora, das marcas sublinhadas, destaca as que não conseguias substituir em menos de duas semanas por outra marca qualquer, com alguma pesquisa e dedicação...
conseguiram chegar ao ponto 3? muitas vezes não... se sim, a quantas marcas chegaram no final? dividam pelo total de marcas que tinham no ponto 1. Qual é o valor? deixem pf na caixa de comentários

sem grandes dramas, estamos provavelmente perante o maior desafio de relevância de sempre na história das marcas!

por isso escrevi no passado o post "o que aconteceria se a sua marca deixasse de existir?" com o exercício de "escrever o obituário da marca" como uma forma de pensar o futuro e o estado atual da mesma (antes que desapareça de vez...) 

sugiro a leitura aqui, pelas razões óbvias